Eu não recomendo.
Mas pelo menos agora entendo qual o drama todo envolvido em torno disso.

Seu chão cai, mas não cai de uma vez. Ele cai todos os dias.
A cada novo confronto com a realidade que deixou de existir, a cada novo sonho criado em cima de um cemitério que você já chamou de lar.

É visceral. Até pode-se dizer que compartilha algumas semelhanças com término de namoro: uma pessoa que você considerava família deixa de existir, é um luto que acontece ainda em vida e todo aquele drama que te contam. Só que a materialidade não disfarça as diferenças, porque a sua conta bancária também muda, a titularidade dos boletos muda e todos os dias você descobre algo novo que precisa ser mudado de lugar, seja de forma abstrata ou concreta.

Em outubro de 2025, eu deixei meu marido no aeroporto pra outro estado e ele nunca mais voltou. 1 mês depois, me trouxeram um cara estranho, frio, que na semana seguinte e nas vésperas do meu maior evento de quadrinhos, respondeu com um “depois falamos sobre isso” quando foi pressionado contra a parede se ele tava pensando em divórcio. Pra um casal cujo maior desentendimento era decidir o filme que iriamos assistir, divorcio ate entao era uma palavra que nao fazia parte do nosso lexico.

Acontece, mas gostaria que tivesse sido menos traumático, pelo menos.
Pra ser justa, sei que foi a primeira vez dele se divorciando também. Dificilmente somos bons na primeira vez que fazemos algo.

Mas ele foi tão bom em ser diplomata pela primeira vez, achei que seria mais diplomático nos seus assuntos domésticos. Como de costume, homens são melhores de entender o que é um compromisso quando falamos de trabalho. Eles sabem que não é de bom tom tirar férias quando acabam de entrar num projeto, mesmo que a planilha de banco de horas diga o contrário. Não devia ser tão diferente assim num casamento.

Minha sogra diz que estou me fazendo de vítima, mas isso foi até antes de eu dizer pra ela as circunstâncias em que tudo aconteceu. Depois veio o silêncio, como a maioria das pessoas. Talvez seja o constrangimento por observar um sentimento cru, que não foi selado antes de chegar no prato.

Eu acho que meu defeito é não ficar constrangida em sangrar. É natural pra mim relatar essas cólicas e, como artista, é esse o jeito que eu encontrei de me fazer útil à sociedade. As pessoas se identificam e me pagam pelos sentimentos que poucos têm coragem de verbalizar em voz alta. Em contrapartida, essa autenticidade cobra um preço alto nos bastidores. Poucos amigos que achei que tinha feito nesse ambiente aristocrático ficaram de fato do meu lado. O Santo Agostinho diz que temos que “compreender mais do que ser compreendido, amar mais do que ser amado”, e eu compreendo. Esse ministério é um lugar extremamente político, até no gesso com que foi construído. Do ponto de vista estratégico, não faz o menor sentido segurar a mão da ex-companheira do seu colega de trabalho que você vai continuar vendo por mais alguns anos. Eu compreendo. Mas, às vezes, eu gostaria de ser compreendida.

Compreendo que é mais fácil me taxar como doida, instável. Imagina, a mulher que mora sozinha com seus gatos — eu virei o arquétipo de bruxa. Uma lembrança desagradável de que tudo pode acabar do dia pra noite, de que relacionamentos não duram pra sempre. Eu também achei mais fácil acreditar que era tudo uma mera coincidência, que talvez fosse fruto de uma bipolaridade subdiagnosticada. Até que essa facilidade ficou difícil demais de acreditar.

Porque, de repente, você pisa em uma bolota no meio do asfalto. Ela tem cheiro de merda, parece merda, tem textura de merda. Mas, de alguma forma, ele e os outros querem te convencer a provar pra ver se tem gosto de merda. “Pode ser um chocolate, ué”. É, sempre tem a possibilidade de ser só um chocolate peculiar, assim como sempre tem a possibilidade de uma cabra cair na sua cabeça - As chances são baixas, mas nunca zero.

Agora, quando dois amigos de profissão acabam com seus respectivos casamentos na mesma semana, depois dos dois ficarem juntos no mesmo setor por 1 mês inteiro em outro estado, quando uma das partes já dizia sentir ciúmes, quando uma das partes te bloqueia de tudo do nada e de repente te falam que eles estão juntos 4 meses depois, pode ser um desses chocolates com cheiro de merda, mas você provaria?

E eu compreendo. Compreendo que ninguém quer estar perto de alguém com tanto drama acontecendo na vida. Compreendo que é uma profissão que não permite se contaminar com polêmicas ou controvérsias. Compreendo que seja mais fácil acreditar que foi um timing muito infeliz essa sequência de acontecimentos. Ninguém quer ser o vilão da história dos outros.

Mas tenho muita dificuldade de compreender a covardia e a hipocrisia das pessoas. Tenho dificuldade de entender por que a amiga “feministona”, que se fantasia de “Miss Andria” no carnaval, foi a primeira a me julgar quando meu colapso mental não estava instagramável logo na segunda semana que ele saiu de casa. Tenho dificuldade de entender por que, quando tentei uma overdose, a primeira reação da minha ex-sogra, que eu chamava de segunda mãe, foi dizer que eu gosto de chamar atenção. Tenho dificuldade de entender por que ele me disse pela primeira vez que não me amava quando eu ainda estava na maca do hospital, fazendo lavagem estomacal.

E, com o não entendimento, vem a raiva, como a maioria das coisas que não conseguimos compreender na sua essência.
Ninguém quer ser o vilão da história dos outros, mas, independentemente do que eu quisesse, eu seria a vilã de qualquer forma